Sentimo-nos, individualmente, cada vez mais livres. Mas, ao mesmo tempo, vamos percebendo que, colectivamente, somos cada vez mais impotentes. A liberdade não se converte em acção, nem tem consequências no mundo. É este o drama da nossa democracia, e talvez a origem de todos os seus impasses.
O Barómetro da Qualidade da Democracia divulgou recentemente um relatório sobre «a qualidade da democracia em Portugal: a perspectiva dos cidadãos». As conclusões divulgadas (de que os media em geral fizeram eco, e pouco mais) apenas acrescentaram ao que já era previsível o fetichismo dos números: 56% dos inquiridos preferem a democracia a qualquer outra forma de governo, 15% preferem “nalgumas circunstâncias” um governo autoritário em vez de um governo democrático, e 10% são indiferentes à forma de governo. A estes números juntam-se outros que confirmam o generalizado descrédito da política e dos partidos: a erosão do seu sentido de missão e do interesse nacional, a atrofia da sua responsabilização pelas decisões que tomam, a sua crescente dependência das corporações e das instâncias europeias e internacionais.
Mas para se compreender todo o significado destes dados, é preciso perceber qual é a concepção de democracia que os inquiridos têm em mente ao darem as suas respostas. Este ponto é muito relevante porque, segundo o relatório do Barómetro, se 86% dos inquiridos identificam a democracia com a realização de eleições livres, mais ainda a identificam com um nível de bem-estar mínimo para todos os cidadãos (89%), com a existência de dirigentes competentes e com o funcionamento de um sistema judicial justo (87% em ambos os casos).
Neste tipo de inquéritos é sempre preciso ter em conta que os resultados têm duas faces: há o que os números revelam, que em geral faz notícia mas não faz pensar muito, e há o que os números escondem, que não faz notícia mas dá muito que pensar. É, mais uma vez, o caso.
Penso que se devem destacar, aqui, duas ideias. Ambas são fundamentais para compreender as grandes metamorfoses em curso nas democracias contemporâneas. A primeira, é que a democracia é tanto um regime político, com todas as formalidades que isso implica, como uma forma de sociedade, com toda as tensões que isso supõe. A segunda, é que a extensão e consolidação da democracia no mundo de hoje tem tido, por contraponto, a crescente incapacidade das sociedades e a progressiva impotência dos cidadãos.
Vejamos as coisas mais de perto. No nascimento da democracia moderna, o regime político e a forma social faziam um só. A democracia era entendida como o resultado da convergência de duas grandes ambições, a da soberania do povo e a da igualdade dos cidadãos. As revoluções francesa e americana do século XVIII decorreram, é bom lembrá-lo, desta perspectiva política comum. Hoje a situação é muito diferente. Abriu-se um abismo entre as duas vertentes outrora solidárias, e a maior novidade é o modo quase indiferente como nas últimas décadas o imperativo democrático se tem acomodado com o crescimento das desigualdades. Como se a cidadania política progredisse ao mesmo tempo que a cidadania social regride, para usar os termos inspirados de Pierre Rosanvallon, nesse notável estudo que é «La societé des égaux».
O processo merece a maior atenção, nomeadamente porque ele toma a forma de um paradoxo que se instalou no coração das democracias contemporâneas e que leva, como diz Rosanvallon, a que «nunca se tenha falado tanto de desigualdades e nunca se tenha feito tão pouco para as reduzir.» Neste quadro, os atritos entre as formalidades políticas (voto, sistema eleitoral, vida parlamentar, etc.) e as tensões sociais (desemprego, recessão, etc.) só podem agudizar-se. É precisamente isto o que as prioridades reveladas pelo inquérito do Barómetro bem mostram.
Mas um segundo fenómeno se junta hoje a este, e com diversas consequências de peso. É que na base da “harmonia” original entre as vertentes política e social da democracia, estava a convicção que a liberdade garantida aos indivíduos se transformava naturalmente, ou mesmo automaticamente, em acção colectiva. E que, portanto, um indivíduo mais livre era uma promessa de uma sociedade mais justa.
Ora aqui a decepção não podia ser mais brutal. A liberdade tem efectivamente conduzido a uma cada vez maior emancipação dos indivíduos, mas esta esgota-se num frívolo individualismo dos direitos, cujo âmbito se procura constantemente alargar, em prejuízo do próprio sentido do colectivo ou do comum.A evolução oligárquica das nossas democracias está por isso, como há muito vem explicando Marcel Gauchet, em sintonia com uma profunda despolitização das sociedades, hoje tão atordoadas que não conseguem sequer definir com um mínimo de clareza, nem o que querem nem o que recusam. Afinal, não será precisamente este estado de espírito o que melhor exprimem os diferentes movimentos de indignação, que vão aparecendo e desaparecendo um pouco por todo o lado?
(Diário de Notícias,09.02.2012)
9 de fevereiro de 2012
A IIMPOTÊNCIA DEMOCRÁTICA
2 de fevereiro de 2012
O TRUQUE DA TENAZ
Isto das repetecas, afinal, está mais generalizado do que eu pensava. Ao reagir no Expresso à minha última crónica, Miguel Sousa Tavares veio apenas repetir (quase palavra por palavra, ao estilo “copy paste”) o que já tinha escrito no mesmo jornal... a 5 de Julho de 2008. O ataque pessoal é rigorosamente idêntico: ambições, tachos, traições, etc. Só o pretexto mudou. Na altura a conversa foi sobre a descoberta de uns “rabiscos” do Vale do Côa que, dizia ele, graças a mim “alguns oportunistas declararam ser gravuras paleolíticas”. Do alto da sua proverbial sabença, ignorava que essas gravuras já tinham sido classificadas como Património Mundial da UNESCO pelos mais exigentes peritos mundiais (e isto em 1998, ou seja, dez anos antes…).
Miguel Sousa Tavares invocou então “a maior autoridade mundial na matéria” para dizer todos os disparates que lhe vieram à cabeça nessa semana. Tive de o corrigir e esclarecer com paciência, em dois textos publicados aqui no Diário de Notícias (a 12 e 19 de Julho). E ele lá se esgueirou com uma desculpa esfarrapada sobre a tal autoridade mundial que ninguém conhecia, afirmando que era o que tinha lido nos «jornais da época» (sic!).
Eis um bom exemplo de uma “inércia” intelectual infelizmente muito comum nas nossas elites, que se comportam, como escrevi então, como autênticos parasitas do atraso português. Algures no passado ganharam “reputação”, e desde então mais não fazem do que geri-la com o menor esforço. Não estudam, não se actualizam, não evoluem, e às tantas nem sequer se documentam antes de opinar. Sabem, no fundo, que a impunidade será garantida, ora pela ignorância de uns, ora pelo medo de outros.
Esta “inércia” empobrece os media, amarra o debate público a ideias feitas e, fatalmente, degrada a nossa democracia. No caso do comentário político, este parasitismo vive de uma circularidade viciosa: o comentador instala-se numa posição cinicamente blindada, que só lhe pode dar sempre “razão”, e depois vai rodando entre um argumento e o seu contrário. Senão vejamos. Criticam-se os políticos por não terem ideias próprias. Mas se alguém assume com frontalidade alguma causa, vira-se logo o disco: é sede de protagonismo ou ressabiamento. Acusam-se os políticos de só pensarem em “tachos”. Mas se alguém mostra desprendimento e lida com esses lugares sem abdicar da sua consciência, vira-se logo o disco: é oportunismo ou traição. Lamenta-se que os políticos pactuem com a desonestidade. Mas se alguém ousa pôr os valores acima do resto, vira-se logo o disco: está a “morder a mão que lhe deu de comer”. E assim sucessivamente…
É uma técnica retórica elementar, é o chamado “truque da tenaz”, que ao longo da História tem sido usado com frequência por regimes totalitários e políticos populistas. O mundo mediático criou as condições para este truque reaparecer em força, garantindo o ganha-pão a muita gente que fala de tudo sem saber realmente nada. A estes “tudólogos” basta-lhes ir parasitando a actualidade, usando a tenaz e dando corda ao que apetece ou calha dizer. Afinal, são só mais uns “rabiscos”... Miguel Sousa Tavares é um virtuoso desta técnica, é exímio a reduzir a política a nomeações de favor e fidelidades caninas, ambições e traições. Não somos cegos, e ninguém pode negar – nem deve esconder – a realidade. Mas convenhamos que desperdiçar o tempo de antena nesta lógica circular não presta grande serviço aos leitores, e muito menos à Democracia…
Pela minha parte, permaneço fiel a outra forma de ver a Política. Como alavanca para o desenvolvimento. Como instrumento para defender os interesses comuns, para fomentar o diálogo, para construir projectos de futuro. Como missão, com causas e valores. Causas e valores que sempre procurei servir, quando para isso fui solicitado. Assumo o balanço de todas essas missões, que sempre exerci com sentido de responsabilidade, e que sempre terminei com inteiro desapego. E se não escondo que as exerci com orgulho, também não esqueço os sacrifícios que elas, muitas vezes implicaram. Na minha vida pessoal, mas também na minha vida profissional: por exemplo, quando aceitei a pasta da cultura, em 1995, tive que renunciar a uma das mais prestigiadas cátedras europeias, a “Chair Perelman”, na Universidade Livre de Bruxelas. E a todo um conjunto de actividades, de investigação e ensino, que foram a minha mais central opção de vida, e às quais regresso sempre alegria e entusiasmo. Essa foi a única carreira que eu “quis”, e que tenho. E por ela respondem inúmeras publicações e provas, nacionais e internacionais.
Nunca quis, nem quero, nada da Política. Tal como acontece, estou certo, com muitos outros cidadãos dos mais diversos partidos, move-me apenas a genuína convicção que lhe posso “dar” alguma coisa. Com um objectivo fundamental: o de, contrariando as múltiplas tenazes que desvitalizam a democracia e estropiam o espaço público, contribuir de todas as formas possíveis que estejam ao meu alcance para a sua valorização e qualificação.
(Diário de Notícias,02.02.2012)
26 de janeiro de 2012
A REPETECA
Sócrates, um admirador de Sarkozy? Esta ideia, que se destacou na reportagem de Daniel Ribeiro para o Expresso sobre a «nova vida de Sócrates em Paris», surpreendeu muita gente. Foi no entanto o próprio José Sócrates quem, durante a campanha eleitoral de 2009, revelou em duas entrevistas televisivas a sua grande cumplicidade e afinidade com Nicolas Sarkozy, indicando-o (apesar, disse, da sua amizade por Zapatero) como o líder político que mais admirava e de quem se sentia mais próximo. Terá sido, sem dúvida, uma afirmação táctica, porque naquela altura Sarkozy estava “em alta”. Mas penso que também foi uma confissão genuína, à qual se devia ter dado mais atenção. Porque o facto é que, se olharmos bem, o jornalista Daniel Ribeiro tem razão: «Curiosamente, Sócrates parece ter mais afinidades pessoais, e até políticas, com Sarkozy, do que com os seus camaradas socialistas franceses.»
Vejamos: ambos desvalorizaram sempre os valores, as ideias e as causas, em nome da alegada eficácia de uma acção constantemente encenada. Comungaram sempre do mesmo voluntarismo político, que ignora a complexidade das sociedades contemporâneas. Cultivaram sempre o mesmo reformismo “ao empurrão”, e o mesmo pragmatismo da chamada “cultura de resultados”. Partilharam o mesmo tipo de narcisismo político que, por ignorância e sobranceria, só convive bem com um deserto de ideias à sua volta. Convergiram no deslumbramento de uma “modernidade” identificada com o financismo, com a deriva das novas tecnologias e com o circo comunicacional. Revelaram o mesmo tipo de reverência pela ideologia do sucesso, e uma negligência semelhante em relação à generalidade dos imperativos sociais. Demonstraram o mesmo tipo de tentações pelo controlo dos media, na base de uma também análoga relação de fascínio/pavor por eles. A crise de 2008 apanhou-os, aos dois, completamente desprevenidos, e ambos se especializaram na negação das evidências até aos limites do possível. E também se revelaram almas gémeas ao desprezarem, tanto os sinais da realidade como as lições da história.
E o facto é que, para lá de meras banalidades sobre o regresso do Estado (e, mais tarde, sobre a “salvação” do Estado Social), ninguém ouviu a José Sócrates uma palavra que fosse sobre a necessidade – mais, a obrigação moral – de os socialistas construírem uma resposta própria, autónoma e consistente para a maior crise que o capitalismo conheceu nas últimas décadas.
Preferiu, pelo contrário, dar as mãos a Sarkozy e lançar-se com ele, em Janeiro de 2010, na aventura de uma “moralização do capitalismo”, numa cumplicidade que o Presidente francês saudou sublinhando, como agora lembra Daniel Ribeiro, «não haver um ponto de divergência entre nós». Como hoje se fala de Merkozy, poder-se-ia então falar de Socrazy, ou de Sarkotes...
Nada disto me surpreendeu. Conheci José Sócrates em 1995, quando ambos integramos o governo liderado por António Guterres, ele como Secretário de Estado do Ambiente, pasta então entregue a Elisa Ferreira. Mantive sempre com ele relações de regular e frontal atrito, a começar numa lista de nomeações que ele queria que eu, como ministro da Cultura, fizesse em Castelo Branco, e a acabar, como se sabe, com a minha recusa em aceitar que Portugal apoiasse para a liderança da UNESCO um facínora com largo cadastro que lhe tinha sido sugerido pelo seu “amigo”, o então ditador egípcio Hosni Mubarak, que ameaçava queimar todos os livros da cultura judaica ... Pelo caminho, as fricções foram muitas e quase sempre do mesmo tipo.
Devo dizer que nunca vi em José Sócrates convicções socialistas – no sentido europeu de “social-democrata” – mas antes uma atracção pela paródia em que infelizmente o socialismo tantas vezes se tem tornado, deslumbrado com o capitalismo financeiro, as novas tecnologias e os malabarismos da comunicação. Vivendo sempre perto do mundo dos negócios e dos futebóis, e desprezando acintosamente o conhecimento, a cultura ou a educação, com o mais perigoso dos desdéns, que é o que se alimenta do ressentimento e da inveja. Para mim, o socialismo democrático era – e continua a ser, tanto quanto possa ter algum sentido – uma afirmação de valores que se baseia justamente na distância crítica em relação a tudo isso, e que se traduz numa exigente crítica do capitalismo, numa lúcida desmontagem das ilusões das novas tecnologias, e numa inequívoca reivindicação de autonomia face à voragem mercantilista da comunicação. O socialismo democrático deve ser um projecto de emancipação, e não um carrossel de anúncios e de equívocos.
Em 2004, quando José Sócrates disputou com Manuel Alegre e João Soares a liderança do PS, escrevi o que pensava e avisei: «tudo pode acontecer, mas seria grave que o PS pudesse ser conduzido por alguém que anda por aí com um currículo em parte surripiado, em parte escondido.» (Público, 07.09.2004) Os socialistas decidiram o que entenderam e os portugueses escolheram o que pensaram ser melhor. Opções que, naturalmente, respeitei, com esperança que a responsabilidade do poder viesse a ter algum efeito benéfico. Foi uma esperança vã. A história fala por si, e dispensa comentários: o desnorte com o caso da licenciatura em 2007, a total incompreensão da crise em 2008, a aguda mitomania de 2009 e 2010, a bancarrota em 2011. Pelo meio, um tratado de Lisboa inútil, que só veio reforçar o poder alemão, e um reformismo esfarelado que raramente passou dos anúncios. Na grande história do Partido Socialista, o “socrazysmo” foi um período atípico, que deixou um longo rasto de oportunidades perdidas, de casos estranhos, de histórias mal contadas e de encenações inúteis. Em seis anos de governação nem tudo foi mau, e seria injusto esquecê-lo. Mas sejamos claros: foram anos sem alma, numa constante deriva de valores e de convicções. Não tirar daqui nenhuma lição seria, no mínimo, estúpido.
Tudo isto torna penosamente patética esta história de «José Sócrates a estudar filosofia em Paris». Sobretudo porque, depois das aldrabices da licenciatura na Universidade Independente (hoje bem documentadas no livro O Processo 95385, Publicações Dom Quixote), tudo o que se lê na reportagem do Expresso lembra irresistivelmente aquilo a que Freud chamou em 1920, no seu Jenseits des lustprinzips, a “compulsão de repetição”, e a que os brasileiros, de um modo mais corriqueiro, chamam... uma repeteca. Lá temos de novo, como se pode ler na benevolente reportagem de Daniel Ribeiro, a entrada por favor na Universidade, o aluno com estatuto especial, os equívocos sobre o que de facto lá diz estudar (afinal, é “filosofia” ou é “ciência política”?), a contumaz esquiva à prestação de provas regulares e, até, a questão da língua (teremos agora o “francês técnico”?). Domínio em que, note-se, José Sócrates parece conhecer bem um provérbio que retrata o traço mais forte da sua congénita afinidade com Nicolas Sarkozy: «plus c’est gros, mieux ça passe!».
Creio, contudo, que no momento de extrema gravidade que o País atravessa, o que é urgente é afirmar outros padrões, tanto éticos como políticos. Os tempos de crise que vivemos são tempos radicais. Sê-lo-ão, sem dúvida, cada vez mais. E o radicalismo começa na moral, antes de se fazer sentir na rua. Quem não o entender, será arrastado pela corrente do que aí vem: basta olhar para o que se passou por cá esta semana.
(Diário de Notícias,26.01.2012)
19 de janeiro de 2012
SOB SUSPEITA
Portugal tem hoje dois inimigos tremendos. Um deles é local e bem conhecido: chama-se clientelismo. O outro é global. O deslumbramento nacional com o crédito fácil permitiu-lhe ganhar terreno durante décadas, e só agora, com a crise, o País consegue ver bem a sua dimensão. Chama-se financismo, é o poder dos agentes financeiros e especulativos sem qualquer controlo.
A última semana trouxe más notícias em relação ao combate que, em ambos os casos, precisamos de vencer. No plano global, tudo se complicou com a baixa generalizada dos ratings da Zona Euro. Desta vez atingiu a França e separou-a, pela primeira vez na história, da Alemanha. Pôs a zona monetária a quatro velocidades, e deixou seriamente fragilizado o Fundo Europeu de Estabilização Financeira, um instrumento vital para a estratégia europeia, que é garantido a 20% pela França. Porquê esta notação? A Standard and Poor’s diz não acreditar nas soluções que a União Europeia teima em prosseguir, e afirma que “um pacote de reformas que só assente no pilar da austeridade orçamental corre o risco de se tornar auto-destrutivo”. Vindo de quem vem, nada disto é para tomar à letra. Mas é interessante notar que é justamente isto o que o Conselho Europeu se prepara para ratificar de cruz, no próximo dia 30, sem qualquer verdadeira discussão.
A diabolização dos “mercados” não nos leva a lado nenhum. É tempo de perceber que o verdadeiro inimigo das economias e dos povos é o financismo, e não - só por si - os mercados. Foram políticos imprudentes quem abriu caminho a este descontrolado poder da finança, ao incentivarem medidas que puseram nas mãos dos especuladores quase todas as poupanças do mundo, bem como quase todos os critérios da sua gestão. E como não há (como se tem visto) moralização ou refundação do capitalismo que ponha cobro a isto, terá de ser a política – desta vez, esperemos, com mais lucidez e mais coragem – a corrigir os erros cometidos nas últimas duas décadas. E nesses erros é também preciso incluir a incompreensão sobre a verdadeira “guerra de moedas” que se tem vindo a travar no mundo, e de que o ano de 2012 vai certamente dar eloquentes provas.
Na frente interna, e independentemente do que se pense do mérito ou demérito das políticas adoptadas, tocou-se num ponto de descrédito político e ético que dificilmente terá volta atrás. Depois de seis meses a fazer, em nome de uma duvidosa surpresa, o contrário do que se prometeu no domínio da gestão das finanças públicas, descobre-se agora que a imperativa mudança que se prometera ao País em termos de transparência, de independência e de competência dos escolhidos para a administração pública e empresarial, não passou de mais uma ...promessa eleitoral!
Esboroa-se assim, mais uma vez, a expectativa de uma indispensável despartidarização do Estado e das suas áreas de influência, que não passou de umas avulsas medidas simbólicas de princípio de mandato. É pena. Sobretudo porque se fizeram agora alterações que há muito se impunham no estatuto dos gestores públicos e na lei-quadro dos Institutos Públicos. O País vive uma austeridade que é mais consentida por medo do que aceite por convicção. E os portugueses estão a perder as suas últimas ilusões com uma classe política que se revela tão incapaz como voraz, e que parece ver no povo um mero pretexto para justificar a sua cada vez mais inútil – quando não danosa – actividade.
Não “são todos iguais”, é certo. Mas convenhamos que faltam bons exemplos. A começar pelo do Presidente da República, que num contexto de tão dramáticas dificuldades, que de resto ele permanentemente enfatiza, não esteve à altura da dignidade do cargo quando decidiu optar pelas suas pensões de reforma, em vez de assumir o salário das funções que o povo português lhe confiou directamente pelo voto. E sobram exemplos lamentáveis, como os que o jornalista António Sérgio Azenha analisa com objectividade no seu tão silenciado livro Como os políticos enriquecem em Portugal (ed. Lua de Papel, 2011), onde mostra como a passagem pela política pode viabilizar aumentos salariais de 3.000%, ao mesmo tempo que transfigura alguns vulgares militantes partidários em inesperados “senadores” da República...
Sob suspeita. Eis, em síntese, como está a generalidade da classe política e aparentados, aos olhos de um País que vive sacrifícios e sofrimentos sem fim nem saídas, num círculo de ferro feito de austeridade e de clientelismo.
(Diário de Notícias,19.01.2012)
12 de janeiro de 2012
O PÁIS DO FAZ DE CONTA
O escândalo tornou-se, na era do “infortenimento” em que vivemos, mais numa questão de oportunidade do que de verdade, de excitação do que de justiça, de ajuste de contas do que de valores.
Não admira por isso que o escândalo apareça hoje em dia tantas vezes associado, não ao que se ignorava, mas à espectacularização do que já todos sabiam. Foi o que agora ocorreu com o alarido sobre a maçonaria, que tanto tem agitado os media: os factos são graves, mas não são novos. O esclarecimento é necessário, mas ficou pela rama. E as consequências serão, como é costume, nulas. O circo domina, o que conta é o faz de conta.
E no «país do faz de conta» não queremos lidar com factos nem com evidências, preferimos sempre efabular com ilusões e tagarelar com distorções, tão ávidos por denúncias e rumores como indiferentes à sua origem, consistência ou destino. No «país do faz de conta» preferimos fingir surpresa com as tão conhecidas ligações dos partidos políticos com a maçonaria do que olhar – e sobretudo mudar – a realidade que todos conhecemos bem: a de que os partidos são hoje, todos eles, máquinas obcecadas com a conquista e conservação do poder, e com a eleição/colocação dos seus membros. E que esta transformação faz deles os verdadeiros donos das lojas maçónicas, exactamente o contrário do que mais se tem dito. Passar ao lado disto é não compreender nada do que se tem passado, é falhar o essencial.
No «país do faz de conta» prefere-se a comunicação politiqueira à política propriamente dita, valorizando mais os efeitos do que se anuncia do que as consequências do que se promete. E os jornalistas - a propósito, porque é que não se fala dos jornalistas maçónicos? - fazem cada vez menos escrutínio do que quer que seja, tornando-se cada vez mais cúmplices de um magma mediático-político que alastra no espaço público, estropiando factos, estrangulando pluralismos e macaqueando debates. No «país do faz de conta», é natural que o gigantesco endividamento dos privados, das empresas e do Estado faça parte de uma qualquer celestial generosidade. E que se iluda por todos os meios possíveis a incontornável responsabilidade pelo seu pagamento. Por isso lá se fazem verdadeiros milagres, como o de inventar subitamente excedentes num mar de dívidas, ou discutir folgas e almofadas com o garrote ao pescoço. Até ao dia em que se descobre que a transferência para o Estado do fundo de pensões da banca não passou de mais uma manobra de “contabilidade criativa”, que todos vamos pagar bem caro, já em 2012: vão ser 500 milhões de euros, que o ministro das Finanças simplesmente se esqueceu de inscrever no Orçamento para este ano.
No «país do faz de conta», a Europa veio mesmo a calhar. Ela permitiu prolongar a caprichosa adolescência nacional, iludindo as consequências do fim do império e garantindo uma espécie de “semanada” a quem não quis ou soube perceber que as benesses (dos juros bem baixos aos fundos estruturais bem altos) tinham contrapartidas em trabalho, em criatividade e em mérito. A grande oportunidade, o nosso “plano Marshall” esteve aí, não está na crise como tantos idiotas agora repetem.
O «país do faz de conta» é a terra dos chico-espertos e do facilitismo alpinista, da cultura “powerpoint” e do deslumbramento tecnológico, onde se tornou bem mais simples ter diplomas do que estudar, e onde “fazer” a Universidade é tantas vezes mais obra de expedientes do que de aprendizagem e de esforço. É o país onde, na educação, se fala tanto de estatísticas e de regulamentos como pouco de ideias, de conteúdos ou de conhecimento. No «país do faz de conta» aceita-se tudo desde que se telenovelizem um pouco as coisas, como acontece com a penosa falcatrua da licenciatura de Sócrates, que esta semana lá andou de novo aos trambolhões no julgamento da Universidade Independente. Parece que o «país do faz de conta» gosta, até se diz que ele agora está a “estudar” filosofia em Paris, ilustrando bem o provérbio “plus c’est gros, mieux ça passe”!...
Portugal vive assim, com perspicazmente escreve Agustina Bessa-Luís, numa «perfeita improvisação do destino. Todos se contradizem, mas ninguém entra em conflito. As pessoas confraternizam com o irremediável, mais do que estão dividas nas ideias.» E que é tudo isto, afinal, se não fazer de conta?
(Diário de Notícias,12.01.2012)
5 de janeiro de 2012
UMA PONTE PARA LADO NENHUM
Os políticos podem bem não ser capazes de resolver os problemas do nosso mundo mas, como temos visto, podem agravá-los de um modo muito significativo. Por isso seria bom que em 2012 se conseguisse transformar a política num instrumento um pouco mais mais lúcido, eficaz, respeitado, e sobretudo mais focalizado no interesse comum. Porque é justamente isto que tem faltado: um foco que indique o essencial e o equacione com intuição, com conhecimento e com pedagogia.
Não é fácil, porque o Ocidente há muito que fez da “mudança” o seu imperativo ideológico nuclear. Mas agora que ela ameaça os hábitos instalados e os interesses consolidados por décadas - ou mesmo séculos - de domínio quase absoluto do mundo, não sabe como reagir. A não ser arrastando por inércia essa mesma ideologia, entretanto convertida numa tagarelice que apenas procura iludir o facto de o Ocidente já não querer mudar, mas apenas conservar.O que se passa no mundo é algo que, todavia, não se compadece com ilusões. O que está a acontecer é um abalo sísmico de enormes proporções e consequências, que vai certamente redefinir até ao fim desta década todas as relações de poder e de influência no planeta, alterando posições históricas que muitos acreditavam serem eternas.
O ano de 2012 exige, por isso, que se olhe de olhos bem abertos para o futuro, procurando compreender as mutações que vão ditar uma imensa redefinição do poder estratégico (económico, político, financeiro, militar, cultural) no mundo, com um óbvio mas inevitável prejuízo do Ocidente, que detinha esse mesmo poder desde a Revolução Industrial. O que, naturalmente, terá consequências incontornáveis no nível de vida dos povos: enquanto uns subirão, outros descerão. A dimensão deste reequilíbrio e a amplitude das suas consequências ainda estão, contudo, em parte, nas mãos do Ocidente, e nomeadamente da Europa.
Mas se os dirigentes europeus não aproveitarem esta cada vez mais estreita janela de possibilidades para agir, estarão apenas a construir uma ponte que não conduz a lado nenhum... Para o conseguirem terão no entanto que fazer uma revolução mental que altere profundamente o modo como têm lidado, não só com a crise do euro, mas também com o fenómeno do endividamento e, ainda, com o tabu do livre-cambismo. Antes de mais com a crise do euro, ultrapassando o círculo vicioso em que a Europa se tem enredado, e que amarra cada vez mais a austeridade à recessão, bloqueando assim todas as saídas e horizontes e pondo o projecto europeu cada vez mais em causa junto da generalidade os europeus, condenados a seguir, de fracasso em fracasso, as piruetas da dupla Merkel/Sarkozy.
A seguir, com o endividamento, distinguindo bem o peso – e a razão - das dividas acumuladas e das dívidas recentes, como via para libertar os Estados da loucura especulativa de mercados que tudo confundem na vertigem de lucros estratosféricos. Foi justamente isto o que o antigo primeiro-ministro francês Michel Rocard propôs há dias, protestando contra o facto de os Estados pagarem 600 vezes mais do que os bancos pelos seus empréstimos, e sugerindo que a União Europeia fixasse com urgência uma taxa próxima de 0,01% (que, soube-se agora, foi a taxa que Obama secretamente fixou em 2008, quando emprestou à banca cerca de um bilião de dólares) para os juros das dívidas “antigas”, bem como para os investimentos estratégicos da Europa no futuro. Isto podia ser feito no imediato, desde que o BCE optasse pelo “canal” do Banco Europeu de Investimentos para o concretizar. Estabilizaria automaticamente a situação financeira e daria o tempo necessário para que, sem precipitações, se avançasse com um tratado federador, que dê finalmente à Europa condições para enfrentar os desafios da globalização.
Por fim, com o tabu do livre-cambismo – ou, se preferirem, do proteccionismo -, porque não é possível que a Europa continue a ser a zona mais aberta do mundo ignorando a multiplicação dos ímpetos proteccionistas por todo o lado, nomeadamente nos países emergentes, como ainda agora aconteceu com os países do Mercosur que, em Dezembro, decidiram aumentar pesadamente as suas taxas de importação. Por tudo isto, este começo de 2012 é sem dúvida uma excelente ocasião para se meditar numa sábia máxima do presidente Roosevelt: «Ser governado pelo dinheiro organizado é tão perigoso como sê-lo pelo crime organizado». E pense-se o que se pensar do tão falado gesto de Alexandre Soares dos Santos, ele dá a esta reflexão uma pertinência muito especial!
(Diário de Notícias,05.01.2012)